segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Porque os outros..

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Ainda Taizé

O encontro já acabou a alguns dias. Hoje, olho serenamente para trás e percebo porque «tudo isto» foi tão importante para muitos, inclusive e principalmente mim. «Nada te perturbe, nada te espante, quem a Deus tem nada lhe falta, só Deus basta.» Durante estes poucos dias, transformei-me profundamente; aprendi a diferenciar as pequenas coisas, os pequenos momentos, as ocasiões. E apesar de toda a azáfama e stress na preparação do encontro, aprendi e vivi muito com a ajuda do Espírito Santo. Aprendi que não é preciso muito para falar com Deus; aprendi que afinal não há nada que Deus ainda não saiba e por isso posso falar com ele como se fosse o meu melhor amigo (afinal não é?).

Quem um dia me disse que para chegar a Deus era preciso fazer e sofrer muito, estava enganado. «Na verdade, bastam poucas palavras, por vezes desajeitadas, para entregar tudo a Deus, tanto os nossos medos como as nossas esperanças»[1]. Lembro-me de ouvir pela primeira vez a frase «o simples desejo de Deus já é oração»[2]. Hoje penso que a compreendo plenamente; o facto de desejarmos muito uma coisa é meio caminho andado para a conseguir. Mas afinal o que queremos realmente?

Tomei consciência que Deus só sabe amar[3], não esperando nunca nada em troca – algo muito difícil de compreender nos tempos actuais onde só damos o nosso amor a algo ou a alguém quando temos esperança que vamos ser (justamente) retribuídos. Que espécie de amor seria este?

Conheci um novo Deus; um Deus compreensivo, humilde, bem disposto e sobretudo muito simples... Muitas vezes perguntei: Qual é o verdadeiro caminho para Deus? Agora tenho a certeza que todo o coração que sinceramente faz esta pergunta é-lhe mostrado o caminho. É-lhe dada uma verdade sinceramente sentida. Por isso, a sinceridade é tão importante: para nos manter atentos às respostas que a nossa alma vai encontrando. E essa sinceridade só se consegue permanecendo na simplicidade. Foi por isso que «tudo isto» foi tão importante para mim: Foi permanecendo na simplicidade que descobri a presença sempre constante do Espírito Santo na minha vida. As orações de Taizé fizeram-me ver que só se consegue chegar a Deus pelo caminho do coração, nunca pela jornada da mente, pois nela nunca o será possível encontrar...

Fizeram-me ver que nada é inatingível; sobretudo a paz, tão necessária nos dias de hoje. Paz no coração, no espírito… E tudo afinal depende de nós!

«Permanece na simplicidade e na alegria, a alegria do amor ao próximo. Deus ama-te como se fosses único, e conceder-te-á que vivas uma comunhão com ele. Aí reside uma das fontes da alegria[4]

Permanece junto de mim. Ora e vigia. Ora e vigia.



[1] Carta do irmão Roger, 2004

[2] Irmão Roger

[3] Carta do irmão Roger, 2003 «Deus só pode amar».

[4] Meditação do irmão Roger, 29 de Dezembro 2004.