quinta-feira, outubro 06, 2005

Memória Curta


Sim. Infelizmente este povo tem uma memória parecida aos peixes de aquário. A única grande diferença é que os peixes têm memória de 1 segundo (dois no máximo) e a grande generaliadade dos portugueses costumam ter um pouco mais. Digamos 6 meses. Já cansa ver e voltar a rever o óbvio: Modernidade e obras só a 6 meses das eleições! Coicidência?

domingo, outubro 02, 2005

Eleições


As eleições estão à porta. É já no próximo domingo (9 de Outubro) que metade os portugeses vão escolher quem os vai directamente governar nos próximos 4 anos. A outra metade, irá certamente às compras, ao cinema, à praia..

É curioso: segundo um estudo recente, cerca de 90% dos portugueses acham que as eleições são justas e sérias, mas mais de 50% não vota por achar que não vale a pena.. não deixa de ser intrigante..

Nas últimas eleições - onde fui membro de mesa - deparei-me com situações que nos podem fazer pensar. Um senhor, talvez com os seus 90 anos (anparado pela filha, suponho) demorou cerca de uns 20 minutos a conseguir fazer a cruz no devido sítio. Notava-se que para ele, o acto de votar era algo que não abdicava, mesmo na situação de doença frágil. Votar, presumi, era das poucas coisas que o fazia sair de casa. Ao olhar para os seus olhos cansados, pensei "como é possível haver pessoas que votar é mais um pretexto para NÃO sairem de casa?". Acho que já encontrei resposta: Aquilo que nos faz lutar, para além de nos dar prazer uma vez conquistado, faz-nos ver a vida e pequenas grandes coisas de maneira diferente. Durante mais de 40 anos, este pobre senhor não soube o que era eleições justas e democráticas.

Se depender dele, no próximo domingo lá o vou encontrar outra vez.

quarta-feira, setembro 21, 2005

JMJ Köln 2005– A comunhão dos jovens.


Já dizia a canção de Taizé "Cantai todos os povos, louvai nosso senhor..." E, acima de tudo, foi isso que sentimos no meio de tantos jovens em Colónia: A bandeira era importante; mas mais importante ainda era louvar Cristo.

Partimos para a Jornada como voluntários e integrámos uma das várias centenas de equipas que ajudou a organizar o encontro. Ao todo, cerca de 30.000 pessoas trabalharam diariamente (alguns desde as 4h da manhã) para possibilitar uma experiência inesquecível aos 800.000 jovens (e menos jovens) peregrinos.

O povo alemão – considerados “fechados” - entendeu o sinal dado pela Igreja Católica de que esta podia ser uma oportunidade excelente de abrir as portas a Cristo. E assim o fizeram. O acolhimento em Colónia foi bastante simpático. As pessoas mostraram-se atenciosos, preocupadas em receber da melhor forma que sabiam.

A experiência de participar numa Jornada é indescritível; ainda mais quando se tem a oportunidade de participar no encontro “do outro lado”, isto é, da perspectiva da organização. É difícil transcrever todas as emoções, alegrias, manifestações de amizade, fé, comunhão e partilha que vivemos com jovens de todo o mundo durante os 12 dias passados na cidade dos Magos.

E se já é difícil transmitir todas estas emoções, será muito mais difícil ainda falar sobre o que sentimos com a Presença do Papa.

O Papa não teve medo de apontar o caminho. Lembrou a sede de Deus do homem, as falsas respostas das religiões «faça você mesmo», apontou Cristo como meta. Simples e conciso.

A Missa foi especial. Ouviu-se Português. O Papa passou a 2 metros. Quase lhe pudemos tocar. É um homem como nós. Mas mais: Parece que todo o amor que Deus está nele concentrado. E ao simplesmente olhá-lo nos olhos somos preenchidos por esse amor, por uma alegria difícil de perceber de onde vem.

Foi uma experiência única de partilha e de comunhão com o próximo.
Em 2008… vamos a Sidney (Deus permita).

segunda-feira, junho 13, 2005

Morreu Eugénio de Andrade :(

ADEUS- Eugénio de Andrade

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
é pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

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Perdemos um grande homem. Alguém em que as palavras eram as suas melhores amigas. Perdemos alguém que sabia tocar lá no fundo, usando frases muito simples, mas com muita sabedoria. Depois da perca de Sophia e de Eugénio, a poesia fica muito mais pobre..

terça-feira, junho 07, 2005

Lança-te

Lança a tua luva aos pés do Desespero, e verás que não aceita o desafio. Sê - conforme a seiva que tiveres - e vencerás. Levanta-te das pedras que te feriram e deixa que o teu sangue as envergonhe. Não troques nunca o teu sorriso pelas lágrimas, se o anelo do fácil te segredar: "Basta!"

Constrói-te com paciência até aos cumes, e não invejes a gente da planície. Não hesites nunca na Amizade pura, pois tu és o guardador de teu Irmão.

Ama - em Branco, em Grande e em Bom - e terás asas. Desprende-te de quem te retiver por prisioneiro, mas não recuses a mão ao afogado. Compromete-te para sempre com a Esperança, e ela te dirá que és um Menino.

Encara a vida de frente e com ternura. Entende, longe e quente, meretrizes, banqueiros, calafates e ministros..., e todos buscarão o teu segredo.

E se a quadriga moça do teu corpo freme - porque és Homem, porque és de barro, e porque és fraco - puxa as rédeas, meu valente, até à espuma, mas não te esqueças de que é pela Via-láctea que tu corres.



(Maria Lucília Bonacho)

segunda-feira, abril 11, 2005

Pote estragado

Havia na Índia um carregador de água que transportava - em ambas as pontas de uma vara que levava atravessada no pescoço - dois potes grandes de barro.
Um dos potes tinha uma racha e o outro era perfeito.
O pote perfeito chegava sempre cheio ao final do longo caminho que ia do poço até à casa do patrão.
Mas o pote rachado chegava apenas com metade da água.
E assim, durante dois anos, o carregador entregou diariamente um pote e meio de água em casa do seu senhor.
O pote perfeito, é claro, estava orgulhoso do seu trabalho.
O pote rachado, porém, estava envergonhado da sua imperfeição. Sentia-se miserável por apenas ser capaz de realizar metade da tarefa a que estava destinado.
Depois de perceber que, ao longo de dois anos, não tinha passado de uma amarga desilusão, o pote disse um dia ao homem, à beira do poço:
- Estou envergonhado e quero pedir-te desculpa. Durante estes dois anos só entreguei metade da minha carga, porque a minha racha faz com que a água se vá derramando ao longo do caminho. Por causa do meu defeito, tu fazes o teu trabalho e não ganhas todo o salário que os teus esforços mereciam.
O homem ficou triste com a tristeza do velho pote, e disse-lhe com compaixão:
- Quando voltarmos para casa do meu senhor, quero que repares nas flores que se encontram à beira do caminho.
De facto, à medida que iam subindo a montanha, o pote rachado reparou em que havia muitas flores selvagens à beira do caminho e ficou mais animado.
Mas no final do percurso, tendo-se vazado mais uma vez metade da água, o pote sentiu-se mal de novo e voltou a pedir desculpa ao homem pela sua falha.
Então, o homem disse ao pote:
- Reparaste em que, ao longo do caminho, só havia flores de teu lado? Reparaste também em que, quando vínhamos do poço, todos os dias, tu ias regando essas flores? Ao longo de dois anos, eu pude colher flores para ornamentar a mesa do meu senhor. Se tu não fosses assim como és, ele não poderia ter essa beleza para dar graça à sua casa.


(Autor desconhecido)

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Porque os outros..

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Ainda Taizé

O encontro já acabou a alguns dias. Hoje, olho serenamente para trás e percebo porque «tudo isto» foi tão importante para muitos, inclusive e principalmente mim. «Nada te perturbe, nada te espante, quem a Deus tem nada lhe falta, só Deus basta.» Durante estes poucos dias, transformei-me profundamente; aprendi a diferenciar as pequenas coisas, os pequenos momentos, as ocasiões. E apesar de toda a azáfama e stress na preparação do encontro, aprendi e vivi muito com a ajuda do Espírito Santo. Aprendi que não é preciso muito para falar com Deus; aprendi que afinal não há nada que Deus ainda não saiba e por isso posso falar com ele como se fosse o meu melhor amigo (afinal não é?).

Quem um dia me disse que para chegar a Deus era preciso fazer e sofrer muito, estava enganado. «Na verdade, bastam poucas palavras, por vezes desajeitadas, para entregar tudo a Deus, tanto os nossos medos como as nossas esperanças»[1]. Lembro-me de ouvir pela primeira vez a frase «o simples desejo de Deus já é oração»[2]. Hoje penso que a compreendo plenamente; o facto de desejarmos muito uma coisa é meio caminho andado para a conseguir. Mas afinal o que queremos realmente?

Tomei consciência que Deus só sabe amar[3], não esperando nunca nada em troca – algo muito difícil de compreender nos tempos actuais onde só damos o nosso amor a algo ou a alguém quando temos esperança que vamos ser (justamente) retribuídos. Que espécie de amor seria este?

Conheci um novo Deus; um Deus compreensivo, humilde, bem disposto e sobretudo muito simples... Muitas vezes perguntei: Qual é o verdadeiro caminho para Deus? Agora tenho a certeza que todo o coração que sinceramente faz esta pergunta é-lhe mostrado o caminho. É-lhe dada uma verdade sinceramente sentida. Por isso, a sinceridade é tão importante: para nos manter atentos às respostas que a nossa alma vai encontrando. E essa sinceridade só se consegue permanecendo na simplicidade. Foi por isso que «tudo isto» foi tão importante para mim: Foi permanecendo na simplicidade que descobri a presença sempre constante do Espírito Santo na minha vida. As orações de Taizé fizeram-me ver que só se consegue chegar a Deus pelo caminho do coração, nunca pela jornada da mente, pois nela nunca o será possível encontrar...

Fizeram-me ver que nada é inatingível; sobretudo a paz, tão necessária nos dias de hoje. Paz no coração, no espírito… E tudo afinal depende de nós!

«Permanece na simplicidade e na alegria, a alegria do amor ao próximo. Deus ama-te como se fosses único, e conceder-te-á que vivas uma comunhão com ele. Aí reside uma das fontes da alegria[4]

Permanece junto de mim. Ora e vigia. Ora e vigia.



[1] Carta do irmão Roger, 2004

[2] Irmão Roger

[3] Carta do irmão Roger, 2003 «Deus só pode amar».

[4] Meditação do irmão Roger, 29 de Dezembro 2004.

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Taizé...

Acabo de chegar a casa depois da última oração quotidiana que a comunidade de Taizé realizou na Igreja de S. Nicolau, na Baixa. No final da oração, muitas lágrimas, “All the best for you”, “write me!”… Numa nostalgia única, difícil de transcrever. Sinto-me feliz; aquele ambiente "calmo e muito acolhedor" fascina-me. As músicas permanecem no ouvido e todas as emoções de três meses continuam à flor da pele. Mas por outro lado, sinto-me triste por ter acabado..

Nunca imaginei que esta experiência se torna-se de algo tão importante para mim e para todos os que tiveram oportunidade de participar.

Para ser honesto, não me lembro como toda esta aventura começou.

Lembro-me de estar a navegar na Internet e ler em qualquer lado, “cerca de 50.000 cristãos jovens de toda a Europa em Lisboa num encontro para aprofundar as fonte das fé”. Na altura pensei: “é pena não sabermos de nada por aqui. Será que também podemos participar?”


Não sei como recebi a notícia que os jovens seriam acolhidos em famílias e que… também vinham para a Amora! Lembro-me, de pensar (um pouco devido ao bom jeito português) “esta altura do encontro irá ser péssima para as famílias..; irá ser complicado convencê-las a acolher quem quer que seja na altura do Natal! e ainda por cima estrangeiros! ”. Ainda bem que estava enganado!


O primeiro contacto directo que tive «com tudo isto» foi em Corroios, numa reunião de preparação para todas as paróquias da Diocese de Setúbal. Entrámos timidamente (eu e o Ricardo Meireles) e confesso que ao início estranhei aquilo que hoje considero uma oração excelente.. Depois fiquei encantado com o DVD de apresentação da comunidade e do encontro em si (mal eu suspeitava que o ia ter que ver dezenas de vezes!). Tudo aquilo era novo e emocionante para mim. Nunca tinha ouvido falar de Taizé, ou se tinha, sempre me tinha «passado ao lado».

Um certo dia estava na faculdade a estudar e toca o telefone.. "My name's Magdalena..."

Durante três meses, tudo passou muito rápido. Dezenas de papeis indispensáveis para ler, para arquivar.. telefonemas a fazer, pessoas a contactar! Pensar nas famílias! Estariam elas receptivas? Como organizar algo «assim» por aqui?

Se há coisas de Taizé que me cativaram, a primeira delas foi a simplicidade. Simplicidade em tudo. Nas orações, na coordenação, na logística necessária para proporcionar a 40.000 pessoas um bom encontro. No final de tudo, fica a ideia: para quê ser complicado? Para quê orações «de quilómetros» onde pura e simplesmente as pessoas põem «o automático» e não estão sequer a pensar no que estão a dizer? Para quê canções com dezenas de estrofes irregulares onde só «os mais aptos» são capazes de cantar? No final de tudo, fica a ideia da oração simples, baseadas em músicas perfeitas e no silêncio que chama a paz interior e privilegia o contacto com Deus.

Uma outra característica importante de Taizé foi a universalidade. Jovens de toda a Europa e de todo o Mundo juntos pela mesma causa. Para quê divisões? Afinal a religião não é apenas o «meio para chegar a Deus»? Era fantástico ver esta universalidade nas orações (na paróquia e na FIL). Durante aqueles horas, não havia portugueses nem espanhóis, não havia católicos nem protestantes, liberais ou conservadores. Havia consenso, união, harmonia, paz de espírito, introspecção, oração. Havia algo de mágico. Renascia em todos a esperança num futuro de paz.